terça-feira, 18 de junho de 2019

UM SONHO SONHADO JUNTO, ARIGATÔ!


                                                                                             * Texto Maria Helena Uyeda

Desde que os primeiros imigrantes japoneses chegaram no Brasil, muitas histórias fortaleceram os laços de amizade entre Brasil e Japão. Entre tantas histórias, uma ocorrida em 2018 evidencia elos de solidariedade que formaram uma grande corrente do bem.

É a história de Kiyoko Inokuchi, de 85 anos, que veio ao Brasil há 51 anos (em 1967), acompanhando o marido Tetsuya. Com boa posição social, ele era engenheiro agrônomo e ela tinha formação em magistério, deixaram o Japão porque tinham perdido o único filho.

Primeiro moraram em Bastos (SP) e, em 1968, se mudaram para Curitiba onde nasceu a filha, Suzana Tamae. Como o marido não a levava nos eventos, a senhora Kiyoko quase não saía de casa e, isolada, não se socializou, não fez amigos e nem aprendeu a língua portuguesa.

Há 12 anos, quando o marido faleceu, Kiyoko e Suzana passaram a viver com uma pequena aposentadoria e passaram por dificuldades financeiras.

Acumuladora, sem cuidar da aparência física, andando com um velho guarda-chuva como bengala e não sabendo falar português, a sra Kiyoko chegou até a ser hostilizada pelos vizinhos, quando saia de casa.

Suzana era formada em Letras e Relações Públicas. Ela não se casou e nem teve filhos. Era uma moça estudiosa, mas muito fechada e de poucos amigos. Aos 47 anos estava doente e não voltava para casa há alguns dias. Foi quando, em 17 de abril de 2018, a sra Kiyoko recebeu uma ligação do Posto de Saúde para que fosse até lá. Solicitou um táxi para a central e o motorista Marcelo de Araújo Arruda foi buscá-la. Ao chegarem no local foram informados que Suzana tinha sido internada no Hospital do Idoso Zilda Arns.

Como a idosa só falava em japonês o taxista passou a usar o google tradutor no celular (recurso que utilizou na Copa do Mundo para atender os estrangeiros). Para auxiliar, entrou com ela no hospital onde souberam que Suzana estava na UTI, por causa de uma pneumonia.

No dia seguinte, no horário de visita, entraram juntos na UTI onde Suzana estava em coma. Nesse mesmo dia Marcelo recebeu uma ligação do hospital avisando que ela tinha falecido. Ligou para a idosa dizendo que iria buscá-la na manhã seguinte, mas não contou o quê tinha ocorrido.

Foi no hospital que informaram a idosa sobre o falecimento. Quando a japonesa contou que não tinha ninguém para ajudá-la neste momento difícil, o taxista, sensibilizado, se prontificou a fazer os preparativos para o enterro. A sra Kiyoko não queria velório porque seria apenas ela para velar o corpo (o aparelho celular de Suzana estava no conserto e não conhecia e nem sabia como contatar seus amigos).

O enterro ocorreu no outro dia. No cemitério o taxista viu a cena mais triste da sua vida: em uma sala grande, um caixão, em cima de um carrinho, e apenas uma mãe para o último adeus à filha. Acompanharam o enterro somente os dois: a sra Kiyoko e Marcelo.

No dia seguinte, ela ligou para Marcelo para levá-la até o Nikkei Curitiba onde pode conversar em japonês e pediu o contato de Tereza Mitico Yamawaki (que conhecera há 20 anos quando o marido frequentava estudos budistas).

Ligou para Mitico Yamawaki, que foi até sua residência. A idosa a recebeu no portão e contou que a filha tinha falecido e não sabia o quê fazer, porque estava sozinha no Brasil. Foi sugerido um asilo, como o Wajunkai, que cuida de idosos japoneses. Porém, a sra Kiyoko afirmou que não queria ir para um asilo e que seu maior sonho era voltar para o Japão, o quanto antes. Disse que tinha um irmão caçula no Japão que poderia ajudá-la e mostrou uma carta recebida. Também informou que não possuía nenhum documento, pois os perdera quando choveu dentro de casa.

Comovida, a sra Mitico decidiu que iria ajudá-la a realizar seu sonho. Procurou o Consulado do Japão onde o vice-cônsul Kenji Ishida e sua equipe, penalizados com a situação, fizeram a documentação rapidamente e o cônsul conseguiu o número do telefone do irmão, Hiroshi Ito.

Mitico ligou para o Japão. O irmão, comovido com a tragédia, afirmou que se responsabilizaria por ela, que ela não precisaria levar nada, poderia voltar somente com a roupa do corpo, que ele a receberia de braços abertos.

Quando soube da boa notícia, a sra Kiyoko sorriu pela primeira vez, depois de tanto sofrimento. Porém, faltava comprar a passagem. Para isso, a sra Mitico mobilizou sua família e amigos.

Nas primeiras vezes em que foi até a casa Mitico era sempre recebida no portão mas, quando deu a boa notícia, foi convidada a entrar. Descobriu então que a sra Kiyoko era acumuladora e tinha muita coisa entulhada e espalhada pela casa. Era preciso fazer uma limpeza para dar uma melhor qualidade de vida à idosa, que consentiu porque confiava em Mitico. Para ajudar na locomoção, Jorge Yamawaki, marido de Mitico, conseguiu adaptar uma bengala do falecido marido da sra Kiyoko para que ela abandonasse o velho guarda-chuva.

Durante várias semanas Mitico e a nora, Márcia Yamawaki, arrumaram a casa onde encontraram muitos livros e produtos japoneses de qualidade. Mitico teve então a ideia de fazer um pequeno bazar para arrecadar recursos para a passagem.

A princípio o bazar seria feito pelo grupo de tênis de mesa da melhor idade do Nikkei. Porém, o drama da idosa correu rapidamente. Sensibilizadas, muitas pessoas fizeram doações, inclusive muitos que nem participam da comunidade nipo-brasileira.

Através do Facebook se conseguiu avisar amigas de Suzana, como o pessoal da horta comunitária de calçada Cristo Rei que participou do bazar e fez questão que a idosa visitasse o local. Ela ficou feliz em poder conhecer um lugar onde a filha ajudava.

Com toda essa mobilização foi realizado, com sucesso, um grande bazar no Nikkei Curitiba e posteriormente mais um. Várias pessoas compraram produtos somente para ajudar. Com a arrecadação foi comprada a passagem.

Antes da viagem a sra Mitico a levou para um salão de beleza onde fez o cabelo e as unhas. Foi quando contou que, há mais de 20 anos, não se olhava no espelho.

Sensibilizado com a história, o cônsul-geral do Japão, Hajime Kimura, promoveu um jantar, em sua residência, com algumas pessoas que ajudaram a idosa.

A viagem foi marcada para 06 de junho de 2018. Nesse dia o taxista Marcelo estava trabalhando e pensou que não teria chances de se despedir. Porém, pela providência divina, foi chamado para fazer uma corrida até o aeroporto e conseguiu chegar um pouco antes dela embarcar.

Como nunca tinha viajado de avião e estaria sozinha, o vice-cônsul Ishida acionou os consulados das cidades onde faria conexão, para que a auxiliassem nos aeroportos.

Assim, com a solidariedade de muita gente, a sra Kiyoko finalmente conseguiu realizar seu maior sonho. Ao ligar para a amiga Mitico para contar que chegou bem no Japão, sua voz demonstrava a alegria de poder retornar para a terra natal, no aconchego familiar.

A palavra que a sra Kiyoko mais falou nos últimos dias foi arigatô. O kanji (ideograma) desta palavra significa “algo difícil de conseguir”, por isso se expressa gratidão quando ocorrem os fatos. E nesta história gratidão a Deus pelas pessoas certas que colocou no seu caminho.

Depois de 51 anos de sofrimento, vivendo no anonimato para cumprir a missão de cuidar do marido e da filha, uma tragédia fez com que, em exatamente 51 dias (17 de abril a 06 de junho de 2018), se tornasse conhecida por muitos, que se solidarizaram e formaram uma grande corrente do bem para transformar seu destino.

Esta história teve um final feliz graças à solidariedade de muitas pessoas. Entre ela, duas especiais: o taxista Marcelo que diz ter feito apenas a sua parte, pois não poderia deixá-la sozinha. E se Deus o colocou na vida da sra Kiyoko, ele tinha que ajudar.

A sra Mitico Yamawaki cuidou tanto da idosa que, depois da viagem, ficou doente sendo internada no hospital por 04 dias. Mas, para ela, tudo valeu a pena, pois o que aconteceu foi muito bonito. Generosa, humildemente, diz que tem que só tem a agradecer pela colaboração de tantas pessoas nesta história.

O drama aproximou tanto as duas mulheres que o sonho de uma se tornou o sonho da outra. Dias depois da viagem Mitico escreveu uma carta para Kiyoko onde expressou: “Nosso sonho se realizou. Que seja muito feliz no Japão”.

No final do ano passado o Consulado do Japão homenageou o taxista Marcelo de Araújo Arruda e a senhora Mitico Yamawaki pela ajuda a idosa.

É como diz uma famosa frase: “Um sonho sonhado sozinho é apenas um sonho. Um sonho sonhado junto é realidade”. E o sonho da sra Kiyoko foi sonhado por muitas pessoas. E ele é a expressão do verdadeiro significado de arigatô.

* Maria Helena Uyeda é jornalista e escreveu, junto com Claudio Seto, três livros sobre imigração japonesa:  Ayumi, Hainê e Bushidô.

2 comentários:

  1. Se todas as histórias tivesse um final feliz... seria tão bom!

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  2. Este motorista atendeu minha mãe e meu pai semana passada. Mostra orgulhoso as fotos das homenagens que recebeu. Realmente um homem iluminado.

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